quarta-feira, 3 de junho de 2015

O que via nas cores


Agora que as começo a distinguir nos reflexos, vejo que afinal também podem mentir. Subjectivas na sua essência, prisioneiras da nossa percepção sensorial, viajando de indíviduo para indíviduo, as cores causam em mim distracção. Se já me custa distinguir o cinzento do coração com o vermelho do cérebro, como poderia perceber neste turvo reflexo d'água? Um jogo de convergências, divergências, birrefringências aquáticas desalinhadas e apresentadas em raios de luz dobrados que me confundem a imatura visão do olho embrionário que ainda agora se propôs a ver. Permanece a simplicidade e a saudade dos tons cinzentos, pretos e brancos, que por serem simples, são capazes de apresentar-me o detalhe da natureza humana, a sombra que cai sobre a face no retrato cansado de uma mulher vivida, com as suas rugas de tristeza e trabalho. As cores ferem-me o pensamento lembrando-me ainda mais tudo o resto. Aprenderei então a senti-las, só depois vê-las e finalmente compreendê-las.

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