segunda-feira, 29 de junho de 2015

Não quero ser cego

Sei o quão pequeno sou. A importância que tenho é inversamente proporcional à distância que me encontro do planeta. Cá em cima sou espectador de todas as belezas. Até as planícies mais devastadas pela mão do homem se parecem únicas e extraordinárias. Quanto mais longe estou ou sou, mais nítida se torna a realidade. Acho que nada me deixa mais assustado que a ignorância das virtudes do nosso planeta. Do azul imenso que lá ao longe se mistura com a névoa que se instala na linha ténue e fronteiriça entre água e ar, dos rebanhos brancos que se avultam numa correria sem fim pelos céus, atiçados pelo ladrar do vento incansável e constante. É curioso ver como a vida é constituída de paralelismos singulares. Quando olho o céu vejo rasgões brancos que se vão traçando num risco de giz branco em fundo azul. Agora que sou esse risco, vejo quase um reflexo perturbador no oceano. Um mesmo riscar feito por um lápis diferente, ora pelo divertido barco, ora pelo imponente navio de cargas pronto a atravessar o oceano, garantindo a globalização que todos gozamos. Chego a não acreditar no que vejo. Como se todos os meus problemas se tornassem insignificantes face a toda esta imensidão. Se consigo ver as nuvens a brincar com os reflexos e as sombras, se posso assistir à epiderme oceânica que me faz recordar a minha própria impressão digital, como posso ficar indiferente? Vivo numa obsessão simples de que tudo o que nos rodeia se torna apenas recriações da mesma música tocada vezes e vezes sem conta na mesma cadência, mas com compassos e tonalidades diferentes, como se a cada pirueta da bailarina, o seu fundo se alterasse ligeiramente para fazer justiça ao espaço e ao tempo. Não consigo deixar de pensar na imagem do neurónio que se assemelha à do universo. Talvez o olho humano veja muito mal, pois apenas foca o óbvio e o inútil, esquecendo-se do todo o resto que talvez se apresente à visão num outro plano, ou noutra direcção.

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